‘Projeto Flórida’ retrata desigualdade através do olhar infantil

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Ouço reverberando de vez em quando uma frase que ouvi em um curso que fiz sobre o fato de nos tornarmos pessoas sérias demais quando ficamos adultos. “Não perca a criança que existe (ou uma vez existiu) dentro de você”, é o que eu ouço. No centro e no coração da sua narrativa, essa é a mensagem de Projeto Flórida, filme dirigido por Sean Baker (do ótimo Tangerine). Ambientado em um projeto habitacional, a história é contada através do olhar de Moonee (a adorável Brooklynn Kimberly Prince) e acompanha seu cotidiano e de outras crianças morando tão próximas de um paraíso: a Disneilândia.

Projeto Flórida nos leva ao parque de diversões de Moonee. A utopia do lugar encantado da Disney ganha o mesmo tipo de tratamento nos nomes dos projetos habitacionais, que vão desde ‘Magic Castle’ a ‘FutureLand’. Moonee transita entre esses dois lugares, vista de longe por sua mãe Halley (Bria Vinaite), que ganha a vida como pode fazendo bicos, e o síndico Bobby (Willem Defoe), que cotidianamente precisa correr atrás das crianças e lidar com as bagunças que elas aprontam.

Ao mesmo tempo, Bobby sente um enorme prazer em se vê “obrigado” a desempenhar esse papel de tal forma que lhe dá um senso de pai e protetor, coisas que essas crianças nunca tiveram. Projeto Flórida cria um dualismo interessante entre o projeto encantado da Disney e o empobrecimento, ou descaso e abandono com os moradores que vivem no entorno. A metáfora é ainda mais vívida e triste quando enxergamos esses prédios bem às margens da pista. Seus moradores estão mesmo às margens de uma sociedade capitalista, cuja riqueza dos grandes resorts e parques de diversões sufoca a existência e condição humana dessas pessoas.

Em Projeto Flórida, Sean Baker adota uma câmera mais estilosa ao contrário da filmagem simples de Tangerine, rodado do início ao fim usando um iPhone. O filme é preenchido por cores vibrantes que acompanham Moonee e seus amigos em aventuras transitando de um lado para o outro dos conjuntos, perturbando moradores e desbravando outros prédios abandonados, claramente em consequência da crise que tomou conta dos Estados Unidos entre 2008 e 2010.

Projeto Flórida capta a leveza do olhar de uma criança ao lidar com esses temas. As sequências em que Moonee e a mãe saem vendendo qualquer coisa para os turistas são belos exemplos de como há uma diversão ao fazer aquilo ao invés de ser uma experiência que só reafirma o estado marginalizado com que se encontram. E isso só acontece porque o tempo todo não estamos na Disneilândia, mas se na “Mooneelândia”. E é isso que torna Projeto Flórida um filme tão verdadeiro.

Assista o trailer:

Projeto Flórida (The Florida Project, 2018)
Direção: Sean Baker
Roteiro: Chris Bergoch e Sean Baker
Elenco: Willem Dafoe, Brooklynn Prince, Bria Vinaite, Christopher Rivera, Valeria Cotto e Mela Murder.
Duração: 115 minutos

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