‘The Deuce’ é mais uma série de David Simon com potencial de ser uma obra-prima

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À primeira vista The Deuce, nova série da HBO criada por David Simon (The Wire) e que estreia domingo (10), parece um spin-off de algum filme do diretor Martin Scorsese daquela sua primeira fase responsável por captar uma Nova York cheia de probelmas sociais. Mesmo preservando semelhanças em basicamente cada quadro com aqueles filmes, pouco a pouco vamos entrando na cabeça de David Simon e George Pelecanos, companheiro de longa-data do roteirista e que também assina a criação da série, em seus inúmeros personagens, sua atenção evidente para o som natural e sem trilhas e ao cuidado de uma série que já nasce com potencial para ser uma obra-prima.

Ambientada na Nova York de 1971, The Deuce é sobre a indústria pornográfica. Se em The Wire (leia as resenhas de todas as temporadas aqui) a questão central era as Drogas, e como isso afetava os variados níveis da sociedade e das vidas dos personagens, a questão dessa vez é a prostituição em uma cidade caracterizada pela sujeira tão bem filmada por Scorsese em filmes como Caminhos Perigosos e Taxi Driver, mas também por ser uma cidade de oportunidades e de sonhos. The Deuce é uma série tão social quanto foi The Wire, ou Treme (também criada por Simon), e a luta de personagens-comuns para se equilibrarem e serem alguém.

A primeira sequência que abre The Deuce chama atenção imediata para uma naturalidade visível nas principais ruas de Nova York naquela época, onde prostitutas, cinemas exibindo filmes pornôs e pessoas comuns andando em alguma direção conviviam muito bem no mesmo espaço. A diretora Michelle MacLaren (responsável por quadros e sequências memoráveis em Breaking Bad) utiliza uma cena comum de dois homens sentados em um banco de rodoviária, conversando naturalmente em meio ao vai-e-vem de inúmeras pessoas enquanto observam a chegada de mulheres de outras cidades nos ônibus e ali mesmo começa a recrutá-las para trabalharem para eles nas ruas da cidade. Lori (Emily Meade) é uma delas, se impressionando de antemão com o Cadillac que um desses homens a convida para entrar ao mesmo tempo que sabe perfeitamente o por quê de ter se mudado de Minnesota para Nova York.

A personagem principal de The Deuce só conhecemos mais tarde – e dificilmente esqueceremos. Eilleen “Candy” (Maggie Gyllenhaal, em uma interpretação impressionante) é prostituta mas, ao contrário das outras mulheres, é independente e não tem ninguém que a agencie. Seu objetivo com o trabalho, e ela faz questão de dizer que se trata de um trabalho em uma ótima cena com um garoto que está prestes a perder a virgindade, é guardar dinheiro e enviá-lo para a sua mãe e o filho que moram nos arredores da cidade. Porém, The Deuce vai além de garotas de programa pois também envolve mafiosos ao mais estilo Os Bons Companheiros. Vincent Martino (James Franco) é o co-protagonista, trabalha como bartender de um restaurante (que, por sinal, recebe tudo quanto é gente entre comuns, mafiosos, policiais, estudantes e, claro, mulheres de programa) e o seu irmão gêmeo, Frankie, se envolve em apostas acumulando prejuízos que prometem colocar os dois em perigo.

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Como é característico dos projetos de Simon, há ainda no primeiro episódio um longo núcleo de vários personagens. Isso é comum e após passar pela experiência de assistir The Wire, isso não é mais um problema para mim particularmente. Se no início dá pra sentir um pouco de confusão com o número de tramas e personagens, isso vai passando à medida que o roteiro avança, tão orgânico e capaz de segurar nossa atenção que nos acostumamos. Simon e Pelecanos sabem exatamente o ponto de cada uma de suas narrativas – inclusive quando estão conectadas. Além disso, The Deuce também se caracteriza pelo trabalho de direção de arte em recriar as ruas daquela época de forma tão bem detalhada, principalmente a Times Square. Mas são as atuações de James Franco e Maggie Gyllenhaal que mais se destacam no primeiro episódio. Há tempos eu não via James Franco atuando tão bem, enquanto Gyllenhaal está se consolidando como uma grande atriz.

Como nas outras séries que escreveram, David Simon e George Pelecanos têm o controle sobre o que estão fazendo e sabem como vão administrar os personagens que The Deuce apresenta. A estrutura da série abre possibilidades para todos se desenvolverem, uma estrutura elogiada em todas as séries criadas por Simon. Com tanta série sendo feita aos montes (e até de qualquer jeito), The Deuce é uma aula de como uma história deve ser (bem) contada.

Assista o trailer:

One Response to ‘The Deuce’ é mais uma série de David Simon com potencial de ser uma obra-prima

  1. […] Criada por David Simon e George Pelecanos (as mesmas cabeças por trás da espetacular The Wire), The Deuce é ambientada na Nova York dos anos 70 e 80, aquele período de degradação e abandono que o […]

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