O dia em que eu conheci Martin Scorsese

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Era um sonho. Desses que faz até você escolher uma profissão sabendo que através dela poderá ser mais fácil de atingí-lo. Não passou pela minha cabeça que a escolha de cursar Jornalismo serviria para, quem sabe um dia, estar frente a frente com uma das mentes mais brilhantes que o cinema tem o prazer de ter. Mas enquanto o avião descia para pousar no aeroporto de LaGuardia, em Nova York, tudo começou a fazer sentido. Eu havia estudado quatro anos na faculdade de Jornalismo para chegar àquele momento: o de conhecer Martin Scorsese.

Eu era um dos jornalistas convidados para um encontro rápido com o diretor por causa do seu novo filme, The Irishman (2018). Poucas vezes tive o prazer de participar de algo assim e eu estava tendo uma série de “primeiras vezes” acontecendo ao mesmo tempo. Não só estava sendo a minha primeira viagem a Nova York (e aos Estados Unidos), como a primeira participando de uma cobertura tão importante e que, logo de cara, já me dava a oportunidade de ver de perto não só Martin Scorsese, mas também Joe Pesci e Robert De Niro. Era uma reunião de Os Bons Companheiros, basicamente. E eu sabia que viver esse momento já teria compensado todo o esforço de chegar até aqui.

E lá estava eu, em Nova York. Na cidade onde a maior parte dos filmes de Scorsese estão ambientados. É a sua cidade. Nenhum outro cineasta conseguiu captar tão bem seus moradores, suas experiências e sua maneira de viver nela. No caso de Scorsese, nenhum outro diretor levou de forma tão a sério e visceral o retrato da máfia italiana para o cinema como ele fez. Em seu novo projeto, The Irishman (que será lançado pela Netflix em 2018), esse tema volta mais uma vez após um longo período (desde 2007, quando filmou Os Infiltrados). Na trama, baseada em fatos reais, Robert De Niro interpreta Frank “The Irishman” Sheeran, contratado pela máfia para matar o líder sindicalista (e também mafioso) Jimmy Hoffa.

Claro que tudo isso estava passando pela minha cabeça à medida em que a própria Netflix nos conduzia em uma van pelas ruas de Nova York ao encontro de Martin Scorsese. As paisagens eram conhecidas, apesar de nunca ter tido a oportunidade de vê-las tão de perto e com os meus próprios olhos, sem auxílio de fotografias ou mapas. Um nervosismo foi tomando conta de mim a cada nova informação de que estávamos perto. E quando chegamos e desci da van acompanhando as instruções para onde seguir, fui me dando conta de que finalmente iria conhecê-lo. O que eu falaria? Quais seriam as minhas primeiras palavras? Como eu me comportaria? Será que ele seria (ou é) simpático?

Para uma coisa eu estava preparado: ter a maior aula sobre cinema que já pude ter na minha vida. E foi justamente o que aconteceu. Inicio a conversa me apresentando e dizendo que sou um jornalista do Brasil, quando ele pede licença para me interromper e dizer que “vocês são um povo maravilhoso e têm um grande país e uma grande história cinematográfica”. Após ouvir isso eu mal sabia agora por onde começar, mas continuei dizendo o quanto estava feliz de estar ali, que os seus filmes dialogavam comigo mesmo sem retratarem qualquer realidade que fosse próxima à minha, mas que foi a sua visão de cinema, sua paixão e entusiasmo que mais me influenciaram a ser uma espécie de “pseudo-cinéfilo” (eu não sei se consegui expressar corretamente essa palavra em Inglês, mas eu tentei).

Simpático, como logo descobri nos primeiros momentos da nossa conversa quando ele deu as boas-vindas e me cumprimentou, Scorsese agradeceu as palavras que ele já deve estar até cansado de ouvir mas que, sendo a pessoa que ele é, ainda fica um pouco envergonhado e sem jeito. Às vezes, sua fala rápida me deixou apreensivo. Não sei qual foi o tipo de expressão natural que eu fiz de quem não está entendendo “repete, por favor”, mas ele deve ter percebido quando disse gentilmente: “estou falando rápido demais? Me desculpe, tentarei falar mais pausadamente, mas qualquer coisa que você não entender fique à vontade para perguntar”.

Martin Scorsese tem 75 anos e não parece. Sentar de frente para ele enquanto ouço suas respostas que mais soam como aula do que como explicações do porquê ter escolhido fazer esse filme agora, ou de como foi o clima no set de filmagem ao voltar a trabalhar com Robert De Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel novamente, como ele se sentiu ao revisitar um tema que ele começou a tratar no começo da sua carreira e se isso trouxe algum novo significado, tudo o que consigo enxergar são os seus olhos cheios de vida e ouvir uma tremenda voz jovial que parece nos dar a garantia de que ainda assistiremos muitos filmes dirigidos por ele. Tentei fugir de polêmica, mas perguntei rapidamente sobre como o que ele pensava do streaming e da possibilidade de The Irishman não ser exibido nos cinemas. E ele foi taxativo: “isso não irá acontecer”.

Cheguei ao final do encontro com a segurança de que o que vai realmente acontecer com Scorsese é o mesmo que ocorreu com outros grandes diretores como Jean Renoir e Andrzej Wajda que foram até os últimos dias das suas vidas pensando e fazendo cinema. Ao final do encontro, já com a sensação de dever cumprido e de um sonho realizado, perdi completamente a compostura. Estendi a minha mão até ele para agradecê-lo, ao que ele retribuiu e agradeceu pela minha vinda. Um dia que eu levarei como um dos mais inesquecíveis até o fim da minha vida.

obs: Essa é uma história de um encontro hipotético, um exercício de como seria caso de fato acontecesse.

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