Especial Scorsese: temas mais presentes em seus filmes

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Violência, crime e gângsters são assuntos que aparecem na maior parte dos filmes de Martin Scorsese. Mas o seu cinema é muito mais profundo que isso e revela outros temas que compõe o que o torna um diretor tão fascinante. Em sua infância, Scorsese era um menino retraído e morador do bairro Little Italy, onde ele assistia através da janela da sua casa todo o tipo de problema. E ele cresceu tentando compreendê-los, levando essa experiência para os seus filmes com extremo vigor e performance artística.

Embora a violência, carregada pela máfia italiana, esteja tão presente nos filmes, é impossível comentar sobre eles sem falar em religião, fé, moralidade, isolamento e uma tentativa de substituição da figura paterna que, no fim, sempre acaba terminando em tragédia. Observar esses temas em seus filmes é como conhecer Scorsese como ser humano, tão cheio de questionamentos e conflitos quanto os próprios personagens que retrata. São esses os temas mais comuns:

1) Espiritualidade, Fé e Religião

O caminho de toda a sua filmografia desde o primeiro filme, Quem Bate à Minha Porta (1967) quando o personagem vivido por Harvey Keitel se vê em conflito com sua fé religiosa por aceitar sua namorada que ele descobre ter sido estuprada, parece ter sido criada para levá-lo até Silêncio (2016), uma obra sobre a fé religiosa e perseguição no século XVII no Japão. E tudo isso veio justamente de sua forte criação católica, que por pouco não o tornaram padre.

Em Caminhos Perigosos (1973), a mesma “culpa católica”, cujo conflito é tentar se reconciliar com si mesmo entre ser cristão e ao mesmo tempo mafioso, aparece com ainda mais evidência e relacionada com o próximo tema comum da sua filmografia que será discutida: a máfia. Todos seus personagens daí em diante apresentavam alguma dúvida sobre a fé ou sobre ser cristão, sendo um inclusive levado a tatuar versos bíblicos na própria pele enquanto buscava por vingança.

2) Máfia, família e irmandade

Cena do filme Os Bons Companheiros. | Foto: Reprodução

Juntar esses três elementos foi a saída mais fácil para escrever porque um acaba levando ao outro. E é verdade. A máfia está presente em Caminhos Perigosos e Os Bons Companheiros, mas também funcionam como gatilhos para falar de família e irmandade. Os laços familiares são para sempre e oferecem uma certa capa protetora que regula as ações dos seus personagens, os quais se mantém confortáveis e seguros entre eles mesmos.

Isso nos obriga a falar sobre irmandade porque, mesmo que na máfia nem todos sejam da mesma família, uma vez que se entre nela e começa a fazer parte, todos ali são vistos e tratados como irmãos.

É uma motivação interessante discutida em Os Bons Companheiros, quando apenas Tommy entre os três do grupo tem sangue italiano e pode um dia chegar ao topo da pirâmide. Os outros dois, Johnny e Henry, são imigrantes e precisam se virar para conseguirem se destacar mesmo sabendo que nunca eles poderão chegar ao nível mais elevado da organização criminosa.

3) A figura paterna ganha outros rostos

Cena do filme Taxi Driver. | Foto: Reprodução

Esse é um outro tema comum aos seus filmes que, no final, acaba sempre se transformando em tragédia. Em ao menos quatro filmes esse assunto se repete e podem ser vistos como ótimos pontos de partida para compreender a sua filmografia.

Quando Charlie (Harvey Keitel) se posiciona como uma figura paterna para Johnny Boy (Robert De Niro) em Caminhos Perigosos, ao mesmo tempo que o tio de Charlie tem o mesmo papel; em Taxi Driver, Travis tenta ser uma figura de influência para Iris (Jodie Foster); Henry Hill (Ray Liotta) encontra em Paul Cicero (Paul Sorvino) uma figura de pai que ele não encontrava em casa; e em Os Infiltrados, quando Billy (Leonardo DiCaprio) e Colin (Matt Damon) vêem o mesmo Frank Costello (Jack Nicholson) como pai.

4) Violência, culpa e rejeição

Cena do filme Os Infiltrados. | Foto: Reprodução

No cômodo da sua minúscula casa, Travis Bickle posa para o espelho e questiona “com quem você está falando? Não há ninguém aqui.” Essa é uma das sequências mais perturbadoras de Taxi Driver de um objeto de estudo que está sempre presente em seus filmes. Seja de maneira mais clara, como em Silêncio quando o Padre Rodrigues vai pro Japão praticamente viver sozinho num lugar desconhecido e altamente perigoso, outro como metáfora em dois exemplos de personagens vividos por Leonardo DiCaprio: Jordan Belfort, totalmente isolado por Scorsese ao final do filme, e Howard Hughes, solitário em seu cinema particular enquanto lida com sua doença.

Costumeiramente, a solidão nos filmes de Martin Scorsese vem acompanhada de um sentimento de rejeição. É o caso de Griffin Dunne (Paul Hackett) no filme Depois de Horas (1985), por exemplo, quando sua esperança de que a noite seria perfeita é logo interrompida pela rejeição de Marcy (Rosanna Arquette), o levando então por uma jornada de solidão enquanto tenta recuperar a própria moralidade.

Por último, a violência. É ela que normalmente nos provoca e nos desconcerta. Seja por razões banais e inerentes àquele ambiente tão volátil como em Os Bons Companheiros, ou quando Scorsese empresta um uso visceral como na emblemática cena de Cassino (1995) quando Dominick Santoro é espancado até a morte na frente do irmão Nicky Santoro (Joe Pesci). Por vezes é impossível escondê-la, por fazer tão parte da natureza do personagem como Jake LaMotta (Robert De Niro em Touro Indomável (1980).

Tratar dessas temas claramente nos dá a medida dos significados do cinema de Martin Scorsese.

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