Especial Scorsese: seus filmes sob o olhar da cinematografia

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A parceria entre diretor-fotógrafo deve ser uma das mais essenciais para fazer o filme dar certo, em qualquer nível. As visões dos dois precisam estar alinhadas para juntos criarem a linguagem do filme, o humor, o estilo e todo o resultado que acabamos assistindo na tela. Grandes diretores se notabilizaram também pelo bom relacionamento com um diretor de fotografia responsável por colocar a visão do cineasta em cada quadro. Por exemplo: Bernardo Bertolucci e Vittorio Storaro (O Conformista, O Último Imperador e Último Tanto em Paris); Alfonso Cuáron e Emmanuel Lubezki (Gravidade e Filhos da Esperança); ou Woody Allen e Gordon Ellis (Annie Hall e Manhattan).

E com Martin Scorsese não foi diferente. Por isso resolvi citar a parceria do diretor com quatro cinematógrafos e a importância que cada um deles teve para a linguagem que o autor estabeleceu em seus filmes, influenciando uma geração de jovens cineastas e filmes que tentavam implantar a mesma dinâmica. Porque é impossível falar dos filmes de Scorsese sem citar a força das imagens de Touro Indomável (Michael Chapman), Os Bons Companheiros (Michael Ballhaus), O Aviador (Robert Richardson) ou Silêncio (Rodrigo Prieto). Cada uma das obras fotografadas por esses diretores é um modo de enxergar a visão de Scorsese para a sua narrativa, sendo também um passeio pela própria história do cinema. Em cada detalhe de um quadro, Scorsese e o seu diretor de fotografia deixaram a sua marca. E é isso que vamos discutir agora.

1) MICHAEL CHAPMAN

Por ordem: 1. Touro Indomável / 2. Taxi Driver / 3. O Último Concerto de Rock / 4. Taxi Driver

Responsável pelos trabalhos de Scorsese na década de 70 após os filmes Quem Bate à Minha Porta (1967) e Caminhos Perigosos (1973) terem lançado a carreira do diretor. Em Taxi Driver (1976), Chapman empresta a visão da Nova York em estado constante de insônia (ou seria sonâmbula?), estabelecendo um tom de crueldade que transformou Taxi Driver em referência quando se pensa na cidade daquela década.

Sua crueza em Touro Indomável (1980), filmado em preto e branco e por meio de planos-detalhes que deram verossimilhança às sequências de boxe, é até hoje reconhecida não só como um dos melhores momentos da filmografia de Martin Scorsese, mas também do cinema.

Para Chapman, “a direção de fotografia de um filme não deve ser bonita. Ela precisa servir ao propósito do filme”. Podemos dizer que elas serviram muito bem, obrigado.

2) MICHAEL BALLHAUS

Por ordem: 1. A Última Tentação de Cristo / 2. Os Infiltrados / 3. Os Bons Companheiros / 4. À Época da Inocência

Michael Ballhaus foi o diretor de fotografia com o qual Martin Scorsese mais trabalhou – e possivelmente deve ter se sentido mais confortável em partilhar as mesmas visões sobre linguagem. Ballhaus foi o responsável justamente por trazer dinamismo e movimento aos filmes do diretor, de Os Bons Companheiros (1990) até Os Infiltrados (2006), o último trabalho juntos.

Em uma de suas últimas aparições, no festival de Berlim de 2016 e já com a visão bem comprometida por causa de um glaucoma, Ballhaus foi homenageado e revisitou seus grandes trabalhos. Disse, acima de tudo, que detestava violência e que por isso foi sempre muito difícil trabalhar em alguns filmes de Scorsese.

Mas tendo fotografado simplesmente sete filmes do diretor (Depois de Horas, A Cor do Dinheiro, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros, À Época da Inocência, Gangues de Nova York e Os Infiltrados), seu olhar cuidadoso e detalhista emprestou a Scorsese formatar seus grandes filmes e belíssimos quadros.

Como a sempre citada sequência de Henry Hill (Ray Liotta) entrando no Copacabana, ou a sensível quebra de luz que aproxima Newland Archer (Daniel Day-Lewis) e a condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer) na cena ambientada no teatro. Isso sem falar na sua habilidade para movimentos de 360º, cuja habilidade é tão certeira que sequer faz a audiência se sentir fora do lugar.

Todo o detalhismo e perfeccionismo de Scorsese foi visto por muito tempo pelas lentes de Michael Ballhaus. Na ocasião da sua morte, neste ano, Martin Scorsese escreveu uma carta emocionante e emocionada, uma homenagem. “Foi Michael quem realmente me devolveu o senso de entusiasmo em fazer filmes durante um tempo difícil que foi a década de 80”, escreveu ele na época.

3) ROBERT RICHARDSON

Por ordem: 1. A Invenção de Hugo Cabret / 2. O Aviador / 3. Ilha do Medo / 4. Cassino

Como já vimos nesse especial de Scorsese sobre a importância da luz, o diretor de fotografia que mais trouxe isso para os filmes do diretor é Robert Richardson. Seu uso da luz de fundo para iluminar os personagens de Cassino (1995) é uma das principais características do seu trabalho com Scorsese.

Em Ilha do Medo (2010), por exemplo, a luz constantemente está na altura das costas de Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), iluminando não só ele, mas controlando toda a luz do cenário para enxergarmos o que precisa ser visto por nós.

Mas talvez o seu trabalho mais notável com Martin Scorsese seja em O Aviador (2004), o qual ele venceu o Oscar, rodeado por tons sobrepostos de sépia-pérola que remetem à época do Technicolor quando era possível filmar em três cores (ciano, magenta e amarelo). No filme, Richardson desenvolve uma linguagem difusa e paranoica que combina com o sonho e a personalidade de Howard Hughes (Leonardo DiCaprio). Além disso, contextualiza e ambienta a história ao passar dos anos justamente através das lentes, seja usando grandes angulares onde as três cores eram capturadas organicamente para representar a década de 40, ou as menores usadas no sistema Technicolor de duas cores que representam no filme a década de 30.

Responsável por fotografar sete filmes de Martin Scorsese, entre eles A Invenção de Hugo Cabret (2011), Vivendo no Limite (1999) e Cassino (1995), Richardson segue o mesmo conceito de Michael Chapman sobre o que significa a fotografia de um filme. E diz mais, algo que resume a sua parceria com o diretor mesmo sem citá-lo. “Respeito é o mais importante ingrediente em um relacionamento dessa natureza, particularmente quando situações são extremamente difíceis, como muitas vezes podem estar sendo filmando um filme”, disse.

4) RODRIGO PRIETO

Por ordem: 1. Silêncio / 2. O Lobo de Wall Street / 3. Silêncio / 4. O Lobo de Wall Street

Agora a bola da vez na parceria com Martin Scorsese é o mexicano Rodrigo Prieto, reconhecido por seus trabalhos com o diretor Alejandro González Iñarritu em Babel e com Pedro Almodóvar em Abraços Partidos, trazendo um certo frescor aos filmes de Scorsese e à sua própria linguagem.

Já tendo sido responsável por dois trabalhos com o diretor, O Lobo de Wall Street (2013) e Silêncio (2016) – além do episódio “Piloto” de Vinyl (2016) -, enquanto está no momento trabalhando ao lado do diretor em The Irishman (2018) – Prieto vem criando um tom muito mais naturalista e cadenciado para os recentes filmes do diretor.

Apesar da câmera se movimentar em O Lobo de Wall Street muito similarmente a trabalhos mais antigos de Scorsese, a sua parceria com Prieto se consolidou de verdade em Silêncio, filmado majoritariamente em película e apenas certas cenas usando o digital. Como Prieto disse em entrevista à Time, “esse é o tipo de filme que é possível brincar até com o ar porque era isso que queríamos, tornar a paisagem parte integrante da narrativa”, disse.

Ele continua: “desde o primeiro dia que eu o conheci, Marty me deixou bastante confortável. E uma das coisas que se aprende trabalhando com ele é que nenhuma tomada é aleatória. Por isso um dos melhores dias de trabalho foi na reunião pré-filmagem, quando ele repassou porque queria usar uma câmera estática em determinada cena, ou mais movimento em outra, ou um plano mais fechado ou outro mais aberto”, explica Prieto.

Para ambos, tem sido um aprendizado trabalhar um com o outro, mas também temos tido condições de testemunhar o nascimento de uma parceria de muita intimidade e respeito – e isso fica claro nas entrevistas que dão. Trabalhar com Scorsese requer entender a sua visão, principalmente por ele ser um diretor, assim como Hitchcock foi, que imagina, desenha e cria cada cena através de uma storyboard muito antes das filmagens começarem.

Sobre isso, Rodrigo Prieto só tem uma coisa a dizer: “sempre quando ele fala sobre como quer filmar uma cena, eu simplesmente absorvo tudo imediatamente”.

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