Especial Scorsese: quatro elementos visuais marcantes de seus filmes

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Cada filme do diretor Martin Scorsese, como estamos vendo à medida que mergulhamos em sua carreira e filmografia neste especial do aniversário de 75 anos do autor, é cuidadosamente criado para que cada cena tenha o seu próprio ritmo, estabelecendo um diálogo que cria a composição entre o que está sendo contado e elementos como edição, som e câmera (fotografia).

Se tem algo que Martin Scorsese gosta de fazer é ensinar para plateias jovens toda essa visão que ele tem sobre os filmes (sejam dirigidos por ele ou não). Por isso, em 2013, ele foi chamado para a aula inaugural do John F. Kennedy Centre da qual ele intitulou como “Persistence of Vision: Reading the Language of Cinema”¹ (trívia: ele foi o primeiro cineasta a falar nesta aula desde a inauguração em 1972). Nesse evento ele comentou sobre os quatro elementos que guiam o seu trabalho.

O primeiro deles é a Luz. Na aula, Scorsese diz que “luz é fundamental porque está no centro do que nós somos e como entendemos nós mesmos”.

Em seus filmes, o diretor utiliza o efeito para dar sensação de poder e destaque a um determinado personagem. Em Cassino (1995) e Os Bons Companheiros (1990), Remo Gaggi (Pasquale Cajano) e Paul Cicero (Paul Sorvino), respectivamente, são vistos sempre iluminados porque são eles quem dão as cartas, são influentes e responsáveis pelos negócios.

Já em Ilha do Medo (2010), resultado até de um trabalho mais experimental e de estudo sobre a técnica da década de 50 conhecida como Kodachrome ao lado do diretor de fotografia Robert Richardson, as cenas combinam efeitos de luz, coloração e textura para criar contrapontos entre realidade e alucinação, levantando dúvidas sobre se o que assistimos é real ou fruto da imaginação.

O segundo, claro, é Movimento. E como a câmera nos filmes de Martin Scorsese se movimenta. As sequências de abertura e encerramento de Depois de Horas (1985) são perfeitos exemplos porque a câmera parte de um ponto em diagonal dentro de um escritório tão rapidamente ao encontro do personagem principal, Paul Hackett (Griffin Dunne), que conseguimos sentir toda a energia que Scorsese deposita na história desde o princípio.

Toda a sua obsessão por movimento passa efetivamente pelo o que Scorsese acredita ser o conceito da palavra “diretor”². “Você está direcionando [directing] o olhar da audiência, sua atenção, de um momento para o outro através de todos os tipos de significados”.

Também é impossível falar de movimento sem discutir enquadramento, foco e exposição. O diretor cobriu esse tema em sua aula, quando disse que uma cena é moldada através da maneira “como você coloca a lente, o tamanho que você usa, quanto você deixa no quadro, quanto você deixa de fora”³. Ele continua: “uma das maiores alegrias é enquadrar uma cena, e também é provavelmente a coisa mais difícil de fazer. Há momentos em que é muito difícil decidir o que deixar de fora”.

Talvez o trabalho que mais demarque o terceiro elemento essencial na visão de Scorsese para o cinema, o Tempo, seja Touro Indomável (1980). A ideia do diretor, ao contrário do usual que pensa em se comprimir o tempo, é na realidade expandí-lo. Quando vemos Jake LaMotta (Robert De Niro) saltando no ringue em câmera lenta ou o sangue escorrendo nas cordas usando o mesmo efeito, Scorsese está efetivamente provocando nossa atenção.

Isso também acontece em Os Bons Companheiros, quando em determinas cenas icônicas a imagem é congelada enquanto a narração em voice-over continua narrando a história. É parte do seu trabalho com a editora Thelma Schoonmaker, que transforma seus filmes em uma experiência que é ao mesmo tempo lírica e visceral.

Como diz o próprio diretor, “inferência é o que está na consciência”, ou seja, é o que na realidade nós como audiência não enxergamos na imagem. Ainda segundo Scorsese, esse é o elemento que mais o deixa fascinado e obsessivo. “Às vezes é frustrante, mas é sempre empolgante. Porque se você alterar o tempo de corte mesmo um pouco, por apenas alguns quadros, então a terceira imagem no seu olho muda também. E isso foi chamado, apropriadamente na minha visão, de linguagem cinematográfica”, disse ele.

Dois exemplos vem à cabeça, ambos do mesmo filme. Em Os Bons Companheiros, o plano sequência de Henry (Ray Liotta) entrando no Copacabana acompanhado de Karen (Lorraine Bracco) não tem cortes mas oferece muito para pensar sobre a posição consolidada de respeito e influência que ele conquistou, usada agora para impressionar Karen. Já a cena em que acompanhamos Henry indo de um lado a outro tentando resolver as coisas enquanto sua paranoia de estar sendo seguido só aumenta, há inúmeros cortes rápidos e que agora nos provoca uma ideia completamente diferente daquela imagem que ficou na nossa cabeça anteriormente, ressaltando muito mais um caminho sem volta no qual ele próprio se enfiou.

São esses elementos que tornam o cinema de Scorsese, e sua paixão por esta arte, tão contagiantes.


¹ SKINNER, David. (2013). Martin Scorsese Biography. Acessível em: https://www.neh.gov/about/awards/jefferson-lecture/martin-scorsese-biography
² MASTERS, American. (2010). A Letter to Elia/Reflecting on Kazan: Conversation with Martin Scorsese and Kent Jones.
Acessível em: http://www.pbs.org/wnet/americanmasters/a-letter-to-elia-conversation-with-martin-scorsese-and-kent-jones/1647/
³ LEACH, Jim. (2013). The Art of Martin Scorsese. Acessível em: https://www.neh.gov/humanities/2013/julyaugust/conversation/the-art-martin-scorsese

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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One Response to Especial Scorsese: quatro elementos visuais marcantes de seus filmes

  1. […] já vimos nesse especial de Scorsese sobre a importância da luz, o diretor de fotografia que mais trouxe isso para os filmes do diretor é Robert Richardson. Seu […]

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