Especial Scorsese: Os Bons Companheiros (1990)

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Considerado pelo crítico Robert Ebert como um dos dez melhores filmes da década de 90, Os Bons Companheiros foi costumeiramente chamado pela crítica de “o filme mais realista sobre a máfia de todos os tempos”. Completados 25 anos do lançamento no dia 21 de setembro de 2015, quando ganhou uma versão completamente restaurada, o filme dirigido por Martin Scorsese se transformou no clássico que naquela época alguns já apostavam que seria. Mas essa não era uma clara evidência.

Durante os testes de estúdio de Os Bons Companheiros, houve relatos de pessoas abandonando a sessão e da plateia ter ficado, como um todo, extremamente agitada com as cenas que viram. Quando estreou, no entanto, Os Bons Companheiros deixou a sua marca de sucesso de bilheteria e aclamação por toda a crítica que no fim lhe rendeu seis indicações ao Oscar. Deveria ter vencido como Melhor Filme, perdendo para Dança com Lobos, mas premiou o ator Joe Pesci com a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, e por redefinir um gênero que, desde então, nenhum outro filme conseguiu superar.

Baseado no livro “Wiseguy” (1986), escrito por Nicholas Pileggi (que contribui com o roteiro ao lado de Martin Scorsese, que não escrevia desde Caminhos Perigosos), Os Bons Companheiros acompanha a trajetória de Henry Hill (Ray Liotta), que logo na abertura do filme diz que “sempre quis ser um gângster”. Na medida em que o filme avança por suas quase duas horas e meia, é fácil entender o por quê: ainda adolescente, Henry já ganhava mais dinheiro do que seus pais, não pegava fila na hora de comprar o pão e era visto com respeito por todos só por ser responsável por estacionar os carros dos gângsters.

No entanto, essa mesma vontade não acomete a quem assiste ao filme. Como bem pontuou o crítico David Sims, Os Bons Companheiros leva a audiência, ao contrário de Henry, a não querer aquela “profissão”, para não habitar naquele meio ameaçador de pessoas tão violentas, inescrupulosas e imprevisíveis. Imprevisíveis, aliás, também são dois personagens parceiros de Henry na história, Tommy DeVito (Joe Pesci) e James Conway (Robert De Niro), apesar da personalidade são conhecidos como “Good Fellas” — apelido carinhoso que, como bem o próprio Henry narra em uma passagem do filme, significa que “eram pessoas que todo mundo iria gostar, pessoas do bem”.

Por causa dessa turma e, principalmente por causa de Tommy DeVito, Os Bons Companheiros também pode ser visto como um filme cômico e engraçado. Tommy nos arranca risadas tão intensas quanto as gargalhadas do ator Ray Liotta em cena, seja na improvisada do “funny how? How am I funny”, até uma outra quando Tommy atira nos pés de Spider (Michael Imperioli, conhecido por fazer The Sopranos) porque “queria fazer ele dançar”.

A REALIDADE É CRUA

Em seu texto sobre Os Bons Companheiros, Roger Ebert destaca a direção de fotografia assinada por Michael Ballhaus (que faleceu neste ano, 2017, aos 81 anos), parceiro de Scorsese desde 1985 quando fotografou Depois de Horas, filme que deu a Scorsese uma Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Ebert fala da eficiência do trabalho de Ballhaus em tornar a audiência atenta ao que está acontecendo, por deixar a câmera sempre em movimento, longe de obter da plateia qualquer resposta passiva. Tanto Scorsese quanto Ballhaus queriam que nós, espectadores, nos incomodássemos com o que estávamos vendo. E Os Bons Companheiros nos provoca isso, seja quando paramos para analisar a trajetória da esposa de Henry, Karen Hill (Lorraine Branco), ou mesmo quando testemunhamos a queima de arquivo que Jimmy começa após o grande assalto da Lufthansa.

Isso coincide com o crescimento da paranoia do próprio Henry. Há duas sequências em Os Bons Companheiros que perfeitamente ilustram isso: no plano-sequência do seu segundo encontro com Karen, quando acompanhamos a sua entrada no restaurante seguida por uma steadicam que filma simplesmente uma das melhores cenas da história do cinema; e a sequência final quando o seguimos por um dia agitado entre cozinhar para a família, a constante sensação de estar sendo seguido, a droga que ele precisa mandar para Pittsburgh e o irmão que ele precisa ir buscar no hospital. Scorsese filma com extrema habilidade, deixando a sequência tão visceral que chegamos ao final mal conseguindo respirar.

AUTÊNTICO E ATENTO A CADA DETALHE

O escritor Robert Casillo, autor do livro “Gângster Priest: The Italian American Cinema of Martin Scorsese”, lançado em 2007, escreve que nenhum filme foi tão preciso e autêntico sobre o que aconteceu com a máfia italiana durante os anos 80 quanto esse. Para Casillio, “Os Bons Companheiros foi uma resposta aos inúmeros informantes que assinaram acordos com o FBI para entregarem os mafiosos, fazendo com que muitas famílias tradicionais italianas caíssem”.

Martin Scorsese esteve tão preocupado com a realidade, que o filme foi filmado ao mesmo tempo que muitas informações contidas nele eram checadas pela equipe. Robert De Niro, por exemplo, manteve contato com o verdadeiro Henry Hill por diversas vezes para conversar sobre o roteiro e sobre as ações do seu personagem.

A narração em off, que muitas vezes é até criticada por ser vista como desnecessária, vai além de nos dizer apenas o que está acontecendo. Nos ajuda mesmo a compreender a mente dos criminosos que estão sendo retratados em Os Bons Companheiros, oferecendo no final das contas um estudo antropológico capaz de capturar e refletir com exatidão como ‘o sonho americano’ se traduzia na vida desses personagens, numa busca incessante por dinheiro, poder e privilégios.

Dez fatos curiosos sobre Os Bons Companheiros:

  • Os pais de Martin Scorsese, Charles e Catherine, aparecem no filme. | Foto: Reprodução
  • Joe Pesci escreveu a cena quando ele confronta Henry Hill sobre por que ele está rindo, a famosa "How am I funny?". | Foto: Reprodução
  • A cena em que Paulie tapeia o rosto de Henry não estava originalmente no roteiro. | Foto: Reprodução
  • Foram precisas oito tentativas do clássico plano sequência de Henry e Karen entrando no restaurante Copacabana. | Foto: Reprodução
  • Scorsese e o roteirista Pileggi trocaram o nome do filme de ‘Wiseguy’ para ‘Goodfellas’ para evitar confusão com a série ‘Wiseguy’, que passava na CBS na época. | Foto: Reprodução
  • Ray Liotta ouvia as fitas das conversas do FBI com Hill em seu carro no caminho para o set, imitando os padrões de fala do seu personagem. | Foto: Reprodução
  • Robert De Niro também fez contato com Hill, contando com ajuda do FBI para perguntá-lo sobre o jeito como Jimmy segurava o cigarro ou uma bebida. | Foto: Reprodução
  • Scorsese precisou cortar ao menos 10 cenas sangrentas para obter uma classificação indicativa menos branda para ser aprovada pelo conselho. | Foto: Reprodução
  • Quando Henry e Karen discutem entrar no programa de Proteção à Testemunha, o ex-procurador nos EUA Edward McDonald interpreta a si mesmo. | Foto: Reprodução
  • Para a famosa montagem da música “Layla”, Scorsese tocou a partitura no piano durante a filmagem para obter o ritmo da cena. | Foto: Reprodução

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