De Bauman a Herzog: as preocupações com o mundo conectado

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Em qualquer momento do dia que há uma pausa a primeira coisa imediata que fazemos é pegar o celular. Seja para esperar um elevador, seja na fila do banco ou enquanto esperamos. O mesmo vale quando estamos com nossos amigos. Há alguns anos atrás parecia estranho passar mais tempo na Internet dos smartphones do que necessariamente conversando com as pessoas ali, ao vivo. Hoje isso é visto com total naturalidade.

Tudo isso para dizer que a entrevista que o sociólogo Zygmunt Bauman concedeu recentemente ao jornal El País e publicada nesta semana (leia aqui) continua ressoando. Entre muitos assuntos analisados por Bauman, que tornou-se reconhecido pela ideia de “modernidade líquida”, o tema mais uma vez que permeou a conversa foi justamente sobre essas relações liquidificadas que se transformaram em frágeis ou pouco importantes (talvez o termo mais claro seja desinteressante). E para Bauman “as redes sociais são armadilhas” onde acabamos caindo através de atos simples como adicionar ou deletar amigos.

No documentário Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold, 2016), dirigido pelo cineasta alemão Werner Herzog, há uma preocupação com essa forma com a qual nos relacionamos. Apesar do filme tentar ser muito amplo em querer contar toda a história da Internet desde os primórdios até os dias atuais sem perceber a dimensão do tema que está tratando, é claro que isso acaba tornando o universo do documentário muito vasto sem se aprofundar muito bem em tudo que é mostrado. Mas em um determinado momento, Herzog questiona os monges que estão todos prestando atenção em seus celulares: “será que eles pararam de rezar e estão tuitando?”, pergunta Herzog.

Eis os Delírios

Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold, 2016) | Foto: Divulgação/Magnólia Pictures

Para nossa geração às vezes é muito mais fácil (e prático) se comunicar através dos meios digitais. O uso do celular para efetuar ligações foi substituído pelo envio de mensagens e postagens de textos curtos sobre qualquer assunto, emitindo qualquer tipo de opinião sobre o que quer que seja. Eu prefiro falar por mensagem mas não dispenso uma conversa por telefone, porque eu sei que não é todo assunto que deva ser tratado por mensagens porque há uma enorme possibilidade de haver má interpretação. A conversa olho no olho, presencial, ainda é pra mim é uma poderosa ferramenta de comunicação que não há como ser substituída.

Bom, é assim que eu penso. Devo ser uma minoria porque Eis os Delírios do Mundo Conectado traz inclusive pessoas que precisaram passar por tratamentos porque se tornaram viciadas no uso de celulares e da tecnologia como um todo. Na mesma entrevista ao El País, Bauman fala que “nas redes as habilidades sociais não são necessárias”. Funciona como um escapismo para muitos, que fogem da realidade e entram em um personagem criado por eles dentro da rede, para pertencerem à uma comunidade onde eles possam ser aceitos e compreendidos. Ao partir para as adversidades do mundo real, as barreiras estão lá e aí não conseguem passar por cima delas e resolver as situações que aparecem.

Sou apaixonado por tecnologia e viciado por conhecimento, em aprender novas ferramentas para otimizar meu trabalho, em me manter atualizado e entender de que forma posso ser criativo a partir das minhas conexões e do que sigo no meio digital. Entretanto, gosto da mensagem esperançosa com a qual Herzog finaliza Eis os Delírios do Mundo Conectado, de humanos interagindo entre humanos e não com máquinas ou através de conexões que nos levam às redes sociais. Ao mesmo tempo, me preocupo com as armadilhas alertadas por Bauman. Estar atento a tudo isso que acontece à nossa volta (à minha volta) é uma forma de permanecer sempre vigilante para não cair nessas armadilhas.

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Magnólia Pictures]

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