Tostão, um craque com a bola e com as palavras

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Os últimos dias foram complicados, difíceis. Acordei com uma mensagem da minha noiva me contando sobre o avião da Chapecoense, tragédia que dizimou o time de Chapecó ao matar 71 pessoas (seis sobreviveram) entre jogadores, comissão técnica, jornalistas e tripulação que estavam indo em direção à Colômbia para o primeiro jogo da Final da Copa Sul-americana, contra o Atlético Nacional. A partir dali não era apenas o dia que não seria o mesmo, mas as nossas próprias vidas.

Tentei me desligar das notícias durante toda aquela terça-feira porque eram notícias muito dolorosas. Ao olhar a lista de passageiros daquele voo, com tantos jornalistas que admiro, estava ainda muito difícil de acreditar que era verdade. Meu companheiro durante aquele trágico dia foi o livro Tostão: Tempos vividos, sonhados e perdidos (Companhia das Letras, 194 págs.), um material de crônicas escritas pelo jogador/médico sobre duas grandes paixões da sua vida: o futebol e a medicina.

Meu pai já conversou algumas vezes comigo sobre Tostão e eu tenho o costume de vez ou outra ler suas colunas semanais. Mas lendo o livro tive a oportunidade de conhecê-lo um pouco mais e entender toda a admiração que o mundo do futebol tem por ele. Uma pena que por um descolamento de retina a sua carreira tenha terminado tão cedo, antes ainda dos 30 anos. Mas, como ele próprio diz no livro, em vários momentos Tostão morreu (quando parou de jogar) e nasceu de novo (quando entrou no curso de Medicina na UFMG, em Belo Horizonte).

O livro de Tostão não é somente sobre sua carreira futebolística ou médica, mas é muito mais denso que isso. Tostão fala sobre tática, descreve como times inesquecíveis jogavam, como a Holanda de Cruyff, o Brasil da Copa de 70 do qual ele próprio fez parte, a magia da seleção de 82 que até hoje permanece no imaginário dos amantes do futebol, o porquê das Copas terem ficado chatas a partir de 1994 (pela mudança da regra onde a vitória passou a valer três pontos, e o empate um) e muitas histórias de bastidores que consegui ler com a mesma pintada de romantismo com a qual Tostão as descreve (como o caso quando ele se hospedou, em Milão, no mesmo hotel de Elza Soares e Garrincha).

Toda a paixão traduzida em palavras por Tostão me deu essa dimensão, que às vezes não tenho, do quanto o futebol une as pessoas. As homenagens pela tragédia do voo com a Chapecoense e a solidariedade nestas últimas duas semanas, principalmente do povo colombiano e do Atlético Nacional (time que a Chape enfrentaria) e que tomaram conta do Brasil e do mundo, são provas inesquecíveis do que o futebol é capaz de proporcionar. Nunca mais verei com banalidade aquela pergunta “qual o seu time do coração?”. O futebol toca lá mesmo, bem no fundo.

46335277Livro: Tostão: Tempos vividos, sonhados e perdidos
Editora: Companhia das Letras, 194 págs.
Ano da Edição: 2016
Preço: R$ 31,90

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