ANÁLISE: como a televisão tomou o espaço do cinema americano

Comments (0) Séries

Por muitos e muitos anos, o Cinema era tido como superior em relação à TV. Porém, não é exatamente de agora que a televisão começou a ganhar mais holofotes e a ter uma produção mais criativa e diversa, hoje tendo diversos jogadores (HBO, Netflix, Amazon Prime, FX, Showtime e os canais abertos tradicionais) cuja concorrência os obriga a se superarem e a serem necessariamente melhores.

Recentemente, o cineasta David Lynch (que não dirige um filme há mais de dez anos, o último foi Império dos Sonhos, lançado em 2006) disse em entrevista que “a televisão a cabo é o novo local onde se produz arte”. O diretor está completamente imerso no formato já que vai lançar em 2017 a 3ª temporada de Twin Peaks, no canal Showtime.

Mas tem outros diretores importantes concordando com ele – e também não é de agora. Steven Soderbergh participou do Festival de Cannes em 2013 e na ocasião apresentou o filme Minha Vida Com Liberace (2013), que não conseguiu atingir os cinemas e acabou sendo abraçado pela HBO ao transformá-lo basicamente em um telefilme. Na entrevista coletiva, Soderbergh afirmou que Hollywood não quis financiar o filme porque pensou que apenas a comunidade gay assistiria.

“A TV realmente tomou o controle que costumava ser reservado aos filmes. Hoje, vivemos uma espécie de Segunda Era de Ouro da televisão, o que é ótimo para os telespectadores. Se você gosta que suas histórias sejam aprofundadas e tenham uma continuidade, a TV é emocionante e o melhor lugar”, comentou na ocasião.

A edição recente do podcast Spoilers Talk Show (ouça aqui) trouxe essa discussão ao debater se a TV precisa do cinema, uma vez que de uns anos pra cá o número de cineastas trabalhando na televisão se tornou cada vez mais recorrente. Mas não só cineastas conhecidos, como também atores e atrizes que até chegaram a se reinventar suas carreiras dentro da TV. Para Denis Pacheco, um dos editores e fundadores do Spoilers Talk Show, “a televisão hoje está arriscando mais, investindo em nichos e, consequentemente, colhendo os frutos de dar carta branca para seus roteiristas e diretores”.

E para entendermos o porquê de a TV ter alcançado esse prestígio é preciso analisarmos os picos de criatividade que, ao longo de suas Eras, foram responsáveis pelo desenvolvimento de um formato que atualmente está no seu ápice.

Infográfico mostra as Eras da TV. | Foto: TríviaMail/Arte

Infográfico mostra as Eras da TV. | Foto: TríviaMail/Arte

Jornada pelas Eras da TV

A Segunda Era de Ouro que o diretor Steven Soderbergh mencionou em 2013 é uma continuação da Primeira Era (como mostra o infográfico acima) que atingiu o ápice em 1999, um marco para esse momento criativo da televisão com as estreias de The West Wing (NBC), criada por Aaron Sorkin (que tentou ser ator, não conseguiu e fez carreira escrevendo peças teatrais) e Família Soprano (HBO, principalmente esta, criada por David Chase) em uma época a qual a TV estava acostumada com as franquias CSI em que os episódios poderiam ser vistos em qualquer ordem, com histórias que não tinham continuidade e episódio por episódio se renovavam sempre trazendo uma nova trama a cada semana.

Essa mesma compreensão foi analisada pelo crítico do site HitFix Alan Sepinwall quando ele investigou esse período em seu livro The Revolution Was Televised (2012) ao compreender a forma como o imediatismo dos negócios, e das nossas vidas como um todo, acabaram moldando as emissoras a apostarem mais e mais em programas originais, na maioria protagonizados por homens brancos de meia-idade prontos para serem desconstruídos uma vez que os roteiristas estavam propensos a investigar suas personalidades.

Família Soprano é justamente assim. Antes mesmo de conhecermos todos os negócios de Tony Soprano, sua família e sua influência, o vemos a caminho de um destino (abertura da série) que logo se revela nas primeiras cenas do primeiro episódio ser o consultório de uma terapeuta. Ao sentir fortes dores no peito causadas por ansiedade e estresse, além de estar cansado das recomendações dos cardiologistas que não estavam ajudando, Tony Soprano partiu para uma jornada de auto-conhecimento e a série se influencia no meio do caminho pelas produções mais marcantes do seu gênero como Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese, e o maior de todos O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola.

Para Sepinwall, as últimas séries que fizeram parte dessa geração de ouro que começou com Família Soprano e se consolidou com The Wire (2002), foram Mad Men (2007) e Breaking Bad (2008). The Wire foi lançada sob o mesmo olhar e pretexto de investigar as personalidades de protagonistas que não apenas absorvem o que acontecem ao redor deles mas, principalmente, reagem e lutam contra isso (McNulty é um exemplo claro dessa mudança que The Wire investiga através do sistema caótico e corrupto da cidade de Baltimore).

Breaking Bad e Mad Men foram séries que introduziram protagonistas fortes e erráticos. Donald Draper é um canastrão sócio de uma agência de publicidade  que vive uma vida quando está no centro de Nova York e outra quando faz o caminho para casa no subúrbio, para a sua mulher e seus dois filhos. Já Walter White é um professor de Química que poderia ter tido uma carreira milionária como Químico e sócio de uma das principais empresas do país, mas cai no sistema educacional, descobre que tem câncer e sem dinheiro resolve usar o seu vasto conhecimento químico produzindo uma metafentamina de extrema pureza e qualidade.

'Breaking Bad' e 'Mad Men' são as últimas séries com ligações com a Segunda Geração de Ouro da TV.

‘Breaking Bad’ e ‘Mad Men’ são as últimas séries com ligações com a Segunda Geração de Ouro da TV.

Uma Nova Era

Ainda de acordo com Sepinwall, as duas séries são o último laço (ainda que distantes) daquilo que Família Soprano e The Wire construíram. A partir do término das duas, vivemos uma outra era que é justamente liderada por um outro tipo de modelo e forma de assistir televisão. Os serviços de streaming Netflix e Amazon reinventaram o formato. As temporadas agora são construídas com menos capítulos (em média com oito ou treze episódios) e, principalmente, a forma como assistimos foi completamente transformada. Nada mais de esperar um episódio a cada semana.

Quando House of Cards estreou em 2013 (daí o limite colocado por Sepinwall), a Netflix surpreendeu toda a indústria colocando todos os episódios de uma só vez para serem consumidos da forma como o usuário quisesse, assistindo um aqui e outro ali, vendo de uma vez, fazendo o seu próprio horário. House of Cards é o divisor dessa era, que é marcada por vozes mais diversas sendo representadas em cena e também por detrás da câmera – uma diferença essencial para o cinema e a indústria de Hollywood, tão criticados pela falta de representatividade nos filmes que produz.

No centro dessa discussão está a série Transparent (atualmente na terceira temporada), criada por Jill Solloway e lançada em 2014 pela Amazon Prime, um serviço de streaming concorrente ao Netflix (além dos dois, há também o Hulu). Transparent representa a voz diversa que hoje se vê com tanta naturalidade na TV.

Chamada de “a obra-prima furtiva de Solloway que faz arte revolucionária parecer ao mesmo tempo irresístivel e inevitável” pela respeitável crítica de televisão da revista New Yorker Emily Nussbaum, a série deu voz a uma comunidade sem qualquer representação (seja na TV ou no Cinema) ao contar a história de uma família cujo pai se assume transgênero e começa a sua transição de antes ser chamado como Mort para assumir a identidade como Maura.

Em um artigo publicado pela pesquisadora Amy Villarejo na edição de Julho da revista Film Quarterly, ela diz que Solloway criou um espaço inclusivo e de orientação para os transgêneros que estão intervindo na hierarquia de Hollywood de maneira significativa. Isso pode ser notado não só através da história que conta, mas também por toda a equipe escolhida por Solloway (produtores, roteiristas, consultores, analistas, câmeras, figurinistas, etc) serem também transgêneros e pertencerem a uma comunidade ainda vista com um olhar tão preconceituoso e pouco humano pela indústria.

Nesse ano, o público teve conhecimento de que os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas são representados em sua maioria por brancos (94%), homens (76%) e com uma média de 63 anos.

Baseada na própria experiência de Jill Soloway (seu pai se assumiu transgênero) e escrito em parceria com a sua irmã, Faith Soloway, Transparent examina outros temas que se relacionam com as chamadas pressões impostas pela vida porque não apenas a comunidade transgênero pode se sentir representada na série através da transformação de Mort/Maura, mas também em outros personagens que acompanham essas mudanças.

“A narrativa de Transparent não é apenas sobre um personagem se assumir transgênero e começar sua transição. É sobre temas importantes como segredos familiares e transformação, revelação e mudança todos os quais processados através da especificidade e magia de imagens de televisão e sons, que criam mundos imaginativos”, escreveu ela.

Muito provavelmente, uma série como Transparent não teria muito espaço no mercado de Hollywood – ainda que nesse ano o filme independente Tangerina (2016), dirigido por Sean S. Baker, tenha chamado atenção em festivais e prêmios do cinema independente mas sem conseguir chegar no mainstream, algo que Transparent tem conseguido percorrer recebendo seguidos prêmios importantes que só aumentam o seu prestígio.

Épocas de blockbusters têm sido marcadas por filmes de qualidades duvidáveis.

Épocas de blockbusters têm sido marcadas por filmes de qualidades duvidáveis.

Blockbusters em crise

Há também uma linha de pensamento de que os famosos blockbusters, apelidados de “arrasta-quarteirões”, não estão conseguindo mais chamar tanta atenção assim do público. O formato passa por uma crise criativa porque já não consegue levar um público tão numeroso como antes e arrecadar tanto durante as férias de verão nos Estados Unidos e Europa como antigamente. Um artigo publicado pela Fast Company analisa que este foi o pior ano em blockbusters, de estreias questionáveis como Esquadrão Suicida, passando pela sequência de Independence Day e terminando com Ben-Hur.

A Fast Company ainda lembra no artigo que o ano de 2016 só não foi pior que 2011, marcado pelos lançamentos de Carros 2, A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 e Se Beber, Não Case – Parte III, todos responsável por uma queda de público 56.6% levando em consideração os filmes lançados sempre nesse mesmo período, o qual foi a maior queda dos últimos seis anos naquela ocasião.

Para o editor do Spoilers TV, Denis Pacheco, “o cinema blockbuster tem se apoiado em franquias ou mesmo na reciclagem de ideias e isso tem desestimulado críticos e uma parcela do público”.

murder-robot

A televisão alcançou uma obrigatoriedade por qualidade que talvez antes não fosse tão necessário.

A corrida pelo Ouro

Justamente em tempos dos serviços de streaming e desse novo formato de consumir televisão, também vivemos em uma era de inúmeras séries sendo produzidas e lançadas a todo momento. Para nós que escrevemos e acompanhamos esse universo fica até difícil de conseguir acompanhar tudo o que estreia. Peter Gould, roteirista de Breaking Bad e co-criador de Better Call Saul em parceria com Vince Gilligan (responsável por Breaking Bad), caracterizou o momento atual como uma “intensa corrida pelo ouro”.

Por outro lado, como explica Alan Sepinwall nesta entrevista ao The Washington Post, apesar do grande número de serviços e de séries, está ocorrendo também um fenômeno interessante nesta nova era da TV que é o diálogo entre os fãs e suas séries favoritas. A ideia de lealdade a uma marca é muito comum em alguns outros mercados, mas tem se tornado também uma característica dentro do universo televisivo. A percepção do público de sempre tentar assistir o que a HBO produz, de acompanhar os lançamentos da Netflix porque confiam nela ou de não perder nada que as emissoras FX ou Showtime produzem porque há um histórico de boas séries, também se contrapontam em terem um pé atrás quando uma nova emissora (ou serviço de streaming) está lançando uma série nova.

Como parte desse diálogo estabelecido entre audiência e conteúdo, Sepinwall acredita que o “público agora se sente parte da indústria” e esta é uma afirmação plausível porque basta ficar online nas redes sociais durante a exibição de uma série como Westworld, que recentemente estreou na HBO, para perceber o quanto o público se sente parte desse universo. Mas até antes disso, se pensarmos nas campanhas para salvar um programa do cancelamento (o mais icônico deles foi quando os fãs da série Jericho mandaram milhares e milhares de quilos de amendoins à sede da CBS protestando contra o cancelamento do seriado em 2007) e servem de retrato para acompanhar a forma como as mudanças foram se modificando ao longo do tempo.

Denis Pacheco analisa da mesma forma que Alan Sepinwall ao afirmar que “há muitos fatores que deram impulso para essa Era de Ouro da TV, dentre eles um maior investimento de canais abertos em ampliar a diversidade de suas grades de programação até avanços tecnológicos que permitiram que plataformas como Netflix, Hulu e Amazon Prime passassem a existir e disputar uma fatia de mercado que sempre foi dominada pelos quatro grandes canais americanos”.

São tantas novas séries e novos serviços nesta Era, que fica impossível acompanhar tudo.

São tantas novas séries e novos serviços nesta Era, que fica impossível acompanhar tudo.

A Peak TV

Como o mundo está mudando tão rapidamente, a segunda era da TV mal começou e já possui uma característica muito particular. Chamada de Peak TV, esse momento é acompanhado justamente pelas preocupações de Sepinwall de termos tantos serviços e tantas séries sendo produzidas. Logo, isso torna cada vez mais difícil a escolha por uma série.

Só para citar alguns nomes importantes que estão começando a realizar trabalhos também na TV: Daniel Craig (protagonizará a adaptação do livro Purity, escrito por Jonathan Franzen), Meryl Streep vai estrelar a nova série de J.J Abrams intitulada The Nix, Susan Sarandon e Jessica Lange vão fazer uma série no FX, Amy Adams estará em um novo programa da HBO e Drew Barrymore e Timothy Olyphant estão certos para protagonizarem uma nova comédia na Netflix.

Antes liderada basicamente pelo trio de ferro ABC, CBS e NBC, a indústria, como é possível notar até esse ponto do artigo, mudou e cresceu de forma muito rápida. Atualmente, séries como Mr. Robot, Orange is the New Black, How To Get Away With Murder, Halt and Catch Fire, The Leftovers são a bola da vez de uma corrida onde os canais se apressam para encontrarem rapidamente “a nova Mr. Robot” ou “a nova How To Get Away With Murder”.

No artigo que a Vulture publicou recentemente e dando o completo cenário sobre a Peak TV, o site colheu depoimentos de dezenas de pessoas ligadas à indústria. Segundo o artigo, essa nova fase representa “o fim do ‘e daí?’ na TV. Agora tudo precisa ser excelente”. Talvez este seja o momento de transição das famosas séries que estreiam na fall season, que exibem 24 episódios e duram até o ano seguinte.

Há um notório cansaço do público por essas produções, que no meio desse imenso horizonte e impossível de enxergá-lo com clareza, de séries que estão sendo engolidas por uma qualidade que tornou-se necessária e obrigatória. Resta saber por quanto tempo essa era vai durar até que uma nova fase surja, mudando e radicalizando toda a indústria que cada vez mais tão pouco entendemos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *